Álvaro de Campos
Frases de Álvaro de Campos para refletir sobre vida, intensidade, tédio e modernidade com o olhar provocador do heterônimo de Fernando Pessoa.
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Sou feito da pressa das máquinas e da solidão das multidões, e em mim a vida lateja como um motor sem descanso no coração da cidade.
Quero sentir tudo de todas as formas, porque só assim a alma aprende o tamanho exato do abismo e da beleza que existem em cada instante.
A modernidade me seduz e me fere, pois nela encontro o ruído do progresso e o silêncio profundo que insiste em morar dentro de mim.
Não há repouso para quem pensa demais; cada ideia acende outra, e o espírito segue inquieto, como um navio à deriva em mar de néon.
Entre o tédio e o êxtase, descubro que viver é suportar o excesso de consciência e ainda assim continuar caminhando com a alma acesa.
Sofro da lucidez que amplia o mundo e, ao mesmo tempo, o torna mais distante, como se tudo fosse real demais para caber em mim.
Ser grande por dentro é uma forma de tormento, porque a alma transborda e não encontra limites capazes de acolher sua urgência.
A minha verdade não cabe em medidas pequenas, pois carrego dentro de mim a fome de todas as experiências e a sede de todos os mundos.
Mesmo quando a cidade dorme, há em mim um zumbido de futuro, uma eletricidade antiga que me empurra para frente sem pedir licença.
Não temo a contradição, porque ela é o território natural de quem vive entre a máquina e a nostalgia, entre o cálculo e o delírio.
O que me salva e me condena é sentir demais, pois cada emoção cresce como onda e deixa na praia da memória um gosto de infinito.
Tenho a alma aberta como uma avenida ao meio-dia, onde passam desejos, ruídos e sombras, todos pedindo passagem ao mesmo tempo.
A existência me parece mais intensa quando encosto nela sem defesa, permitindo que a dor e o encanto me escrevam por completo.
Nada me ofende tanto quanto a vida morna, porque fui criado para o excesso, para o impacto, para o espanto que abre os olhos.
Sou o resultado de um tempo acelerado e de uma alma que ainda tenta acompanhar o compasso feroz das coisas que nascem e desaparecem.
A poesia, para mim, é o lugar onde o caos ganha voz e o coração encontra coragem para admitir sua própria desmedida.
Há em mim um desejo de absoluto que nenhuma rotina domestica, pois fui feito para buscar o limite de cada sensação.
Quando a cidade se acende, também se acende a minha inquietação, e tudo em volta parece repetir a promessa de uma vida maior.
Carrego o mundo como quem carrega uma pergunta sem resposta, e talvez seja isso que me mantém vivo entre ruínas e clarões.
Se sou grande em alguma coisa, é na capacidade de transformar a angústia em visão, e a visão em um canto intenso sobre existir.